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Enfermeira já foi até ameaçada por ‘sommelier de vacina’ na Bahia

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Vacinadora de um posto de Seabra, município da Chapada Diamantina, Rebeca Melo, 34 anos, conhece o stress e a pressão. Mas, o pior dos conhecidos são os “sommeliers de vacina”. Dessas pessoas que querem escolher qual imunizante receberão, já ouviu até ameaças. Como não há vacina para ignorância, Rebeca diz que só pode respirar fundo. “Da uma dor essa ignorância, e só vem em mente as vidas que não tiveram a oportunidade de se vacinar”, lamenta a enfermeira.

Os sommeliers frequentam a rotina das equipes de saúde empenhadas na vacinação contra a covid-19, seja no interior, na capital baiana ou em outras cidades brasileiras. Todos os dias, das 8h às 16h, Rebeca se depara com dezenas deles. No último final de semana, houve um mutirão de vacinação em Seabra e 60 pessoas se negaram a ser vacinadas, pois não queriam receber o imunizante disponível.

“Por mais que expliquemos que todas as vacinas são seguras e autorizadas pela Anvisa, as pessoas ainda se negam a tomar”, conta Rebeca.

A Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab) afirmou que não possui levantamento sobre a quantidade de pessoas que querem escolher a vacina, porque a operacionalização do plano vacinal é dos municípios. Já a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador informou à reportagem que estuda implementar um fluxo para inibir “a prática dos conhecidos ‘sommelier’ da vacina”.

Quanto mais pessoas em busca de uma vacina preferida, “manteremos uma replicação viral alta”, explica a infectologista da SMS, Adielma Nizarala. “Abrindo possibilidade para o surgimento de novas variantes”, diz a médica, que reforça a necessida de “informações e orientações quanto a necessidade de se abandonar essa prática em nome de um bem coletivo”.

Na semana passada, a Prefeitura de Salvador condenou a prática mais uma vez, depois de um rapaz gravar o momento em que ele próprio se nega a ser imunizado com a Coronavac, no drive-thru da vacinação da Arena Fonte Nova. Em Seabra, onde Rebeca trabalha, a Prefeitura também lançou a campanha “A vacina mais eficaz é aquela aplicada no seu braço”.

Rebeca trabalha diariamente vacinando a população de Seabra (Foto: Acervo Pessoal)

Outras cidades brasileiras criaram formas de coibir a ação dos somelierss. Em Recife, por exemplo, o prefeito João Campos anunciou que quem recusar alguma vacina no município ficara 60 dias “bloqueado” no sistema de vacinação e só depois poderá ser vacinado. Quem se negar a receber determinado imunizante também vai para o fim da fila em São Paulo.

Hoje, a Bahia tem três imunizantes disponíveis para a população – Coronavac, Aztrazeneca/Oxford e Pfizer/BioNtech. As três, como disse Rebeca, são autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e são capazes de reduzir em até mais de 90% os casos graves da covid-19. Todas elas também foram aprovadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para uso emergencial na pandemia.

Sommelier de vacina compromete pandemia
Em São Sebastião do Passé, a 80 quilômetros de Salvador, até a secretária municipal de Saúde, Andréa Castro, recebe ligações de pessoas que querem descobrir em qual posto podem tomar a vacina que desejam. Embora não tenham como notificar o número de sommeliers, ela sabe que “são vários casos de pessoas querendo escolher”. Diariamente, as equipes de saúde recebem dezenas de ligações de interessados por saber qual será a vacina aplicada naquele dia.

“É incrível. Infelizmente, não temos como coibir, porque voce sabe ser humano como é. O que a gente faz é campanha educativa Não escolha Vacina, escolha a vida”.

Ainda não há levantamento que mostre quantos e quem são os someliers de vacina na Bahia, nem no Brasil. Mas, uma coisa é certa, explica o infectologista e professor da Universidade Federal da Bahia Carlos Brites: “As atitudes dessas pessoas podem influenciar negativamente a pandemia por várias razões”.

A primeira delas é que, se o contingente desse grupo for tão expressivo quanto parece ser, a oportunidade de vacinação para um maior número de pessoas é postergada. Consequentemente, as formas graves da covid-19 e transmissão da doença aumentam. A segunda delas tem a ver com um “efeito manada”.

“Surge disseminação da ideia de que existe vacina de primeira e segunda classe, o que pode refletir em uma faixa menor de vacinação, o que expõe um maior número de pessoas ao risco”.

Todas as vacinas, explica Brites, diminuem o risco de formas graves da doença. Os imunizantes têm variáveis entre si, porque são fabricadas com diferentes tecnologias, mas o mais importante, ensina o infectologista e professor, é “reduzir o número de mortes e internações”. “É isso todas as vacinas disponíveis fazem”, resume Brites.

A onda de desinformação e a falta de uma disseminação rápida, embasada cientificamente, foram fundamentais para que mitos surgissem e, com eles, os somelier. Um dos motivos alegados por quem se recusa a receber a Coronavac, por exemplo, é o desejo de viajar para a Europa, onde o imunizante ainda não é reconhecido.

“Mas muito mais importante é a prevenção das formas graves e mortes”, frisa Brites.

Com a aprovação da Coronavac pela OMS, em junho, cresce a pressão para que a entrada de brasileiros no continente seja facilitada.

Uma pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) ouviu duas mil pessoas de todos os estados do país e mostrou que 43% das pessoas disseram que gostariam de escolher entre as marcas de vacina disponíveis. Mas só 9% afirmaram que deixariam de se vacinar se o imunizante que preferiam não estivesse disponível.

 

Fonte: Correio 24 horas
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